Janelas Killer ou Memória e SPA
Construção e causas da Síndrome do Pensamento Acelerado e
as influências decisivas das "Janelas Killer"
O Eu (Ego), como gerenciador de nossa psique, constrói pensamentos a partir do corpo de informações arquivado em nossa memória. Todas as ideias, a criatividade e a imaginação nascem do casamento entre um estímulo externo e a leitura da memória, que opera em milésimos de segundo.
O Eu não tem consciência dessa leitura e da organização dos dados em alta velocidade, processo que ocorre nos bastidores da mente. Nós temos consciência somente do produto final, ou seja, dos pensamentos já elaborados.
Os Três Fenômenos que Dominam o Eu (Ego)
Augusto Cury descreve esse mecanismo esclarecendo que há três fenômenos fundamentais que se apoderam do Eu e que contribuem diretamente para produzir ou controlar a Síndrome do Pensamento Acelerado (SPA). São eles:
- O gatilho da memória (ou autochecagem): O sistema que dispara a abertura das informações arquivadas diante de estímulos diários.
- As janelas de memória "killer" (ou traumáticas): Arquivos que contêm experiências angustiantes, medos e traumas que bloqueiam a lucidez do Eu.
- O autofluxo: O mecanismo que lê continuamente a memória de forma autônoma, produzindo o fluxo ininterrupto de pensamentos e alimentando a mente acelerada.
Como as Janelas Killer Ativam o Pensamento Acelerado
A Atuação do Autofluxo nos Bastidores da Mente
O autor afirma que, apesar da liberdade que o Eu (Ego) tem em acessar e utilizar informações para construir cadeias de pensamentos sob sua responsabilidade, há fenômenos inconscientes que constroem pensamentos e emoções sem a sua autorização.
Na linguagem junguiana, denominamos esses processos de pensamentos sombriamente negligenciados ou renegados, que habitam nosso inconsciente. Sejam eles a nossa Sombra pessoal ou coletiva (esta última, quando abordamos o conceito de Sombra pelo viés social), são essas estruturas que nos sabotam ou nos tornam prisioneiros de suas próprias vontades. É o que Cury chama de autofluxo.
Sendo assim, o Eu (Ego) tem limitações quanto ao arquivamento da memória. O registro de tudo o que constatamos é automático e involuntário, produzido por um fenômeno inconsciente chamado de Registro Automático da Memória (RAM).
Neste lugar, fica arquivado tudo o que o Eu odeia, despreza ou simplesmente não consegue abarcar. Tudo o que essa instância detesta ou rejeita será registrado com maior poder, formando as janelas traumáticas ou "Janelas Killer". Para os junguianos, denominamos esse processo de complexos autônomos ativados. É quando o Eu é incapaz de evitar o registro dos pensamentos perturbadores, dos estímulos estressantes e das atitudes impensadas.
O Gatilho de Memória e a "Dança dos Fenômenos Inconscientes"
O gatilho da memória (ou autochecagem) é o primeiro fenômeno que se apresenta na "dança dos fenômenos inconscientes" que constroem pensamentos. Sem o pacto do gatilho com as janelas de memória, não seríamos uma espécie pensante.
Ele é acionado quando entramos em contato com cada estímulo extrapsíquico (luz, sons, estímulos táteis, gustativos, olfativos) ou intrapsíquico (imagens mentais, pensamentos, fantasias, desejos, emoções), inclusive com determinados estímulos orgânicos (substâncias metabólicas, déficit de neurotransmissores, drogas passivas).
O gatilho atua em milésimos de segundos, sem que o nosso Eu tenha consciência da sua operacionalidade. É ele quem abre as janelas de memória, ativando a interpretação imediata e a consciência instantânea.
A Velocidade do Sistema RAM na Ansiedade
O gatilho da memória está ancorado em centenas de janelas que sustentam essa percepção imediata. Portanto, as primeiras impressões e interpretações dos milhares de estímulos que percebemos, ainda que se tornem conscientes, são patrocinadas por fenômenos inconscientes.
A ação do gatilho de memória é fenomenal: ela checa os estímulos em bilhões de dados na base da memória com uma rapidez surpreendente.
Milhares de experiências fazem parte do nosso banco de dados da primeira infância, como rejeições, perdas, contrariedades e medos. Elas foram produzidas sem que pudéssemos controlá-las, filtrá-las ou rejeitá-las.
Claro que hoje, como adultos, fazemos escolhas e tomamos atitudes, mas nossas decisões também são pautadas pela base de dados que já adquirimos no passado. Nossa liberdade não é totalmente plena.
A construção de pensamentos não é unifocal, mas multifocal, e não depende apenas da vontade consciente — ou seja, do Eu (Ego). Depende, da mesma forma, de fenômenos inconscientes.
Portanto, somos de algum jeito prisioneiros da nossa história, das informações que processamos, das estruturas familiares e também da cultura em que vivemos. A depender do gatilho de memória acionado, conteúdos aprisionadores podem surgir.
Como exemplo, temos todas as fobias — como a fobia social, a claustrofobia, a acrofobia (medo de altura) — e as obsessões. As dependências químicas também têm como protagonistas o gatilho da memória e experiências ruins (pais excessivamente críticos, por exemplo), o que abre as chamadas "Janelas Killer".
Janelas Killer
Apesar de o autor também discorrer sobre janelas neutras e janelas light, é através do entendimento do que são as janelas killer e como elas são evocadas que entenderemos melhor a SPA (Síndrome do Pensamento Acelerado). Vale a pena darmos uma atenção especial a esse tópico.
As janelas killer correspondem a todas as áreas da memória que têm conteúdo emocional angustiante, fóbico, tenso, depressivo ou compulsivo. São as janelas traumáticas ou zonas de conflito, denominadas pelos junguianos como complexos autônomos.
Killer, em inglês, significa "assassino". Assim, como o próprio nome diz, são janelas que assassinam não o corpo, mas o acesso à leitura de inúmeras outras janelas de memória, dificultando ou bloqueando respostas inteligentes em situações estressantes.
Quando o gatilho encontra tais janelas, uma janela fóbica por exemplo, por mais absurdo que seja o objeto fóbico (um beija-flor ou uma borboleta), o volume de tensão passa a ser tão grande que bloqueia o acesso a milhares de outras janelas. Esse processo faz com que o Eu seja prisioneiro dentro de si mesmo e incapaz de dar uma resposta lógica.
Por isso, mesmo intelectuais, quando estão sob um ataque de pânico ou outra fobia, ficam irreconhecíveis, apresentando reações desproporcionais, incoerentes e ilógicas.
Janelas killer são as que controlam, amordaçam e asfixiam a liderança do Eu (Ego). Há vários subtipos de janelas killer, como as do mau humor, ciúmes, raiva, pessimismo, impulsividade, alienação, fobias, excesso de autoconfiança e dependência.
Algumas janelas não são apenas traumáticas, são estruturais — conhecidas como o "Duplo P" — e sequestram o Eu do sujeito. Duplo P quer dizer duplo poder: o poder de encarcerar o Eu e o poder de expandir a própria janela ou a zona de conflito.
Em outras palavras, o "duplo P" tem o poder de adoecer o ser humano. As janelas killer duplo P são construídas a partir de estímulos intensamente estressantes, como traições, humilhações públicas, ataques de pânico, falências financeiras, entre outros traumas.
Devemos nos mapear e perguntar quais são as janelas killer mais importantes que furtam nossa tranquilidade, nosso prazer de viver, nossa saúde emocional, nossa criatividade e nosso autocontrole. Devemos fazer incursões com coragem em nossa psique e indagar se temos janelas killer duplo P que amordaçam nosso Eu e asfixiam nossas habilidades emocionais e intelectuais.
Todos devemos saber que não é possível "deletar" as janelas killer, mas é plenamente possível reescrevê-las.
Principais causas da Síndrome do Pensamento Acelerado
- Excesso de informação
- Excesso de atividades
- Excesso de trabalho intelectual
- Excesso de preocupação
- Excesso de cobrança
- Excesso de uso de celulares
- Excesso de uso de computadores
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