Monitoramento Digital
O que ele faz na internet?
Mulheres espiãs - É correto monitorar o que ele faz na internet?
Esta é uma entrevista que concedi para as jornalistas do portal Nós Mulheres abordando os limites da privacidade digital, a desconfiança e o comportamento de monitoramento nos relacionamentos amorosos.
Quando e como devemos monitorar o nosso parceiro pela internet?
Estela: Na verdade, nós não deveríamos monitorar quem amamos pela internet. Em um relacionamento saudável, deve haver cumplicidade, confiança e respeito mútuo. O limite do que é permitido ou não dentro da relação precisa ser conversado abertamente entre vocês. O monitoramento oculto é uma quebra clara de contrato, previamente estabelecido pelas partes.
É certo monitorar? Até que ponto isso é aceitável?
Estela: Como te disse acima, não é certo. Todos nós temos direito à privacidade. O monitoramento constante funciona como uma espécie de censura invisível. A pergunta que sempre faço no consultório é: você gostaria de ser monitorado? Mesmo que a sua resposta seja "eu não ligo", essa é uma escolha sua, mas pode não ser a do outro.
Precisamos lembrar que a privacidade na internet é frágil por natureza. A rede não oferece segurança total e estamos permanentemente expostos ao olhar alheio. A invasão de perfis, caixas postais e e-mails por criminosos virtuais e hackers mostra que a espionagem digital é uma realidade não autorizada. Portanto, essa questão passa a ser muito mais de ordem cultural e humana do que apenas técnica.
Quando notamos que passamos dos limites?
Estela: Passamos do limite quando invadimos o espaço do outro e quando você desenvolve uma ideia fixa de vigiá-lo, a ponto de isso atrapalhar a sua própria rotina diária. Ou quando você desconfia de toda e qualquer amizade do seu parceiro nas redes sociais, por exemplo.
Intimamente, você sabe quando está fazendo algo que não deveria, mas a mente sempre cria desculpas ótimas para justificar essas atitudes de controle.
Como identificar que algo está errado com o namorado nas redes sociais?
Estela: Ele troca a sua companhia pelo bate-papo online o tempo todo? Desconfie! Isso não quer dizer necessariamente que ele esteja te traindo, mas acende um alerta de que ele está achando a internet muito mais interessante do que o momento com você. No meu setting terapêutico, te ajudo a entender esses sinais de afastamento.
"Ex" e amigas postarem no Facebook do parceiro: é normal sentir ciúme?
Estela: Vamos pensar no próprio nome REDE SOCIAL: uma rede de relacionamentos. O que procuramos nesses ambientes virtuais, entre outras coisas, é reencontrar pessoas e praticar a sociabilidade. Portanto, não há nada de errado em "ex" ou amigas postarem mensagens comuns. Evidentemente, mensagens de cunho ou intenção claramente amorosa não são bem-vindas. Nesse caso — e somente nesse caso —, o ciúme é uma reação perfeitamente normal. Nada que uma conversa franca entre vocês não resolva.
Quando a mulher pode cobrar um posicionamento e mudança do parceiro nas redes sociais?
Estela: Quando ele passa tempo excessivo em frente à tela do computador ou do celular, preterindo a sua companhia, os interesses da família e as obrigações profissionais.
É correto exigir a senha de todas as contas do parceiro na internet?
Estela: Diz o ditado que "quem não deve, não teme", não é assim? Mas, no meu ponto de vista clínico, a exigência de senhas configura-se como uma quebra de privacidade e uma espécie de censura. Pergunto a você: gostaria que lessem uma carta pessoal enviada por um amigo a você? Gostaria que mexessem na sua bolsa sem permissão ou ouvissem as suas conversas telefônicas? A confiança digital deve seguir a mesma lógica do mundo físico.
Há algum tipo de tratamento quando é notada uma obsessão contínua por vigiar o perfil dele na internet?
Estela: A palavra obsessão deriva do termo latim obsessio, que significa assédio ou cerco. A obsessão possui um caráter compulsivo, doloroso e angustiante para quem sofre com ela e para quem é alvo do controle. Com o tempo, esse comportamento gera graves abalos no relacionamento. O acompanhamento psicológico é indispensável quando esse monitoramento e as compulsões tornam-se crônicos. Em quadros severos, essa dinâmica pode compartilhar características com o TOC (Transtorno Obsessivo-Compulsivo).
Se a desconfiança digital e o impulso de monitorar as redes do seu parceiro têm trazido sofrimento e desgastado a sua relação, você não precisa enfrentar esse ciclo sozinha.
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