Autoconfiança e Privacidade
O Autoconhecimento e a Autoconfiança: a importância nos relacionamentos amorosos.
Esta é uma entrevista que concedi para a jornalista da agência de conteúdo Cucas Conteúdo Inteligente sobre o tema "A importância da autoconfiança nos relacionamentos amorosos". Este material serviu de base para o portal UOL desenvolver um QUIZ especial na subseção UOL Mulher/Relacionamento, sob o título: "Você confia no seu taco?"
Perguntas e Respostas:
Pergunta: Em relacionamentos, fala-se muito que é preciso "confiar no próprio taco". Qual a real importância da autoconfiança nas relações amorosas?
Estela: A autoconfiança não é importante apenas nos relacionamentos amorosos; ela é fundamental em quaisquer relações sociais que você venha a estabelecer. Ela funciona como o "termômetro" da sua autoimagem — entenda-se: do seu autoconhecimento, do seu autorrespeito e da sua autoaceitação.
Na terapia, sempre reforço que a autoconfiança em uma relação amorosa é vital porque te capacita para lidar com questões tanto emocionais quanto práticas, à medida que elas surgem na vida a dois. Quando você desenvolve a autoconfiança, passa a ter muito mais flexibilidade nos diálogos e nas negociações do dia a dia, mantendo a firmeza da sua postura quando necessário, além de uma incrível capacidade de transformação e criatividade para pensar em alternativas quando diante de algum problema.
Não devemos esquecer que, segundo a teoria analítica junguiana, os tipos psicológicos influenciam substancialmente na composição do relacionamento amoroso. Por exemplo: se você se relaciona com alguém que tem o pensamento como função superior e você tem o sentimento como função superior, um acabará constelando no outro o aspecto sombrio de sua própria personalidade.
A teoria junguiana ensina que os aspectos sombrios (a nossa Sombra) são aqueles pouco conhecidos da nossa consciência, alimentados tanto pelas formas negativas quanto pelas positivas do ser. Dessa forma, vocês representarão, respectivamente, a função inferior um do outro — ou seja, aqueles aspectos em nós que são pouco desenvolvidos ou reconhecidos.
Em outras palavras, o seu parceiro trará para o seu mundo qualidades que ainda precisam ser desenvolvidas por você. No encontro amoroso, isso pode parecer uma qualidade encantadora num primeiro momento, mas, com a convivência, tende a tornar-se o maior alvo de suas críticas.
Nesse momento de crise ou distanciamento, a autoconfiança é fundamental para o estabelecimento de um diálogo real entre o casal. É justamente esse o caminho para que vocês possam entender o que está ocorrendo e transformar a relação.
Pergunta: Como reconhecer uma pessoa autoconfiante? Como ela age em relação ao outro? Como ela age diante de um conflito com o par? Ou ainda, numa fase de conquista?
Estela: Existem duas dicas básicas, dentre as várias posturas corporais, que você pode notar: a pessoa autoconfiante olha nos olhos ao falar com seu interlocutor de forma natural e tranquila. É um comportamento bem diferente daquele olhar fixo, estático e quase bravo de quem quer apenas aparentar segurança ou intimidar. Quem é autoconfiante não precisa gritar para se fazer ouvir, seja numa briga ou numa reunião com os amigos.
Além disso, ela é socialmente competente: possui habilidades sociais desenvolvidas. Diante de um conflito, ela sabe ser assertiva: escuta, coloca-se e negocia. É resiliente — ou seja, é capaz de enfrentar e superar as adversidades.
No meu consultório, sempre mostro que a pessoa autoconfiante possui um senso real de controle sobre a sua própria vida e assume o crédito pelas coisas boas que conquistou. Numa fase de conquista, é claro que você vai mostrar o seu melhor, mas fará isso sem a obrigação de parecer perfeito. Em outras palavras, as suas imperfeições não serão maiores que as suas qualidades.
Mas me diga: você conhece alguém que contenha 100% desses atributos totalmente desenvolvidos? Impossível... porque isso é um ideal a ser perseguido, mas jamais alcançado por completo, pois do contrário sairíamos das nossas próprias possibilidades humanas.
Pergunta: Qual é o equilíbrio entre autoconfiança e arrogância quando falamos de relacionamento amoroso? Quais os sinais de que esse limite foi ultrapassado?
Estela: Essa linha é tênue e precisa ser sempre observada, questionada e revisada. Os valores mudam, as pessoas mudam, portanto, os relacionamentos também se transformam ao longo do tempo. Uma boa dica que sempre dou nas sessões: pergunte-se se você realmente escuta o seu parceiro. Você se sente uma pessoa escutada na relação?
Parece bobagem, mas não é. Escutar é muito diferente de simplesmente ouvir. Escutar está próximo do significado de prestar atenção, dar atenção ao outro, sentir, perceber e tornar-se totalmente atento. Já o ouvir está puramente relacionado ao sentido biológico da audição. Sabe aquela expressão "entrou por um ouvido e saiu pelo outro"? Ela quer dizer exatamente isso: eu ouvi o som, mas não escutei a mensagem. O ouvir é muito mais superficial do que o escutar.
No relacionamento amoroso, a arrogância costuma manifestar-se através desse "ouvido surdo". É quando o parceiro ignora as necessidades ou os clamores de quem está ao seu lado. O ponto de vista dele torna-se sempre o mais correto, o mais lógico, o mais "cheio de razões". A teimosia passa a ser o seu maior argumento. Esse é apenas um exemplo, dentre as várias formas, que a arrogância pode assumir na vida a dois
Pergunta: Confiar demais em si mesmo pode ser ruim para relacionamentos amorosos? Por que? O que significa confiar demais? Como age uma pessoa com esse grau de autoconfiança?
Estela: Não, desde que confiar demais em si mesmo não seja quase um sinônimo para uma personalidade narcísica, autocentrada e teimosa. No entanto, se o seu significado for fronteiriço aos conceitos de assertividade e de uma boa autoestima, confiar em si pode ser muito saudável para um relacionamento amoroso.
Por outro lado, o confiar demais — ter a autoconfiança em altíssimo grau — pode levar você a cometer excessos de toda ordem, induzindo ao descuido e ao desleixo em relação ao outro. Mais do que uma inflação do ego, isso pode, na verdade, esconder uma grande insegurança por detrás de uma persona rigidamente fixa.
Persona, comumente falando, é o papel social ou personagem vivido por um ator. É uma palavra de origem latina (derivada do grego antigo) para um tipo de máscara feita para ressoar com a voz do ator no teatro clássico. Ela permitia aos ouvintes que as falas fossem bem ouvidas e também dava a esse ator a aparência que o papel exigia.
Do ponto de vista da psicologia junguiana, a persona é o papel social que interpretamos e pelo qual desejamos ser vistos. Nós necessitamos ser aceitos, pertencer a grupos e nos adaptar às situações dependendo da circunstância em que vivemos. Nós agimos e interagimos de maneira diferente em cada ambiente social, portanto precisamos usar personas adequadas para cada ocasião.
O problema é quando alguém vive, o tempo todo, um único papel: o do "superconfiante". Quem age assim tem, no fundo, receio da aproximação real do outro, pois teme que o parceiro possa ver o que está por detrás da máscara e que tanto deseja esconder.
Pergunta: Por outro lado, como reconhecer alguém que não confia nada em si mesmo? Como essa pessoa age em relação ao outro? Como age diante de um conflito com o par? Ou ainda, numa fase de conquista?
Estela: Quem não confia em si costuma ser pessimista por natureza. Tudo na sua vida parece mais difícil e complicado do que o necessário. Desculpas para não se relacionar com o outro ou com o desconhecido estão sempre na ponta da língua. Geralmente são pessoas rígidas, que vivem sob o grande controle de autorregras e normas, cobrando de si e dos outros valores e atitudes com igual rigor. Necessitam de controle, mas são indecisas.
Diante de um conflito, podem ser apelativas no argumento e refratárias às críticas. Conquistar definitivamente não é o seu forte. Quem sofre com isso precisa sentir que o outro está realmente "na sua" ou prestes a "pular no seu colo" para conseguir dar um passo. A pessoa que não confia nada em si precisa de muitos estímulos para uma possível abertura e aproximação. Habilidades sociais não são o seu forte.
Pergunta: Por que essa falta de confiança em si é ruim? É ruim só para a pessoa ou para o par também? Por que?
Estela: Porque, em primeiríssimo lugar, traz sofrimento e medo para quem passa por isso. Imagine um grito sem voz. É exatamente assim que você se sente. No entanto, é importante entender que ninguém é 100% confiante o tempo todo. A insegurança faz parte da vida e é uma manifestação humana natural. Mas o sofrimento e o medo num grau mais elevado podem te levar a adoecer. A somatização desses sentimentos manifesta-se, por exemplo, através das fobias (em particular da fobia social), da ansiedade e da depressão.
Esse quadro é doloroso para quem sente e também para quem convive ao lado. Todos sofrem, e o relacionamento amoroso pode se desgastar ou mesmo ser levado à exaustão. Nessa hora, o amor, o companheirismo, o diálogo e a perseverança entram como grandes aliados de vocês.
Pergunta: E de que maneira criamos essa autoconfiança? Qual conselho podemos dar?
Estela: A formação da autoconfiança vem "do berço" — isto é, da forma com que somos educados e criados. Desenvolver a autoestima na infância é uma das grandes molas mestras das atitudes parentais e da escola. Uma criação adequada, que contenha amor, tolerância, regras claras e reforços positivos, favorece — e muito — o desenvolvimento psicossocial. O prognóstico são adultos com excelente capacidade de guiar seus comportamentos, que esperam o sucesso, têm tolerância às críticas e às frustrações, e reconhecem seus pontos fortes e fracos. Tornam-se pessoas socialmente competentes, com senso de autonomia, que adoram aprender e sentem prazer na vida e em viver.
Mas sei que nem sempre é possível uma criação tão ideal. Nesses casos, essa habilidade é conquistada na vida adulta através do autoconhecimento. Nunca é tarde para você desenvolver as competências que ainda não possui ou que foram pouco exploradas, tais como a assertividade e as habilidades sociais. Essas ferramentas têm o intuito de estruturar a sua autoconfiança e, acima de tudo, a sua autoestima. Caso seja difícil passar por esse processo sozinho, busque apoio. Existem profissionais capacitados e especializados na travessia dessa jornada. Eu sou uma delas.
Pergunta: Existem pessoas que são autoconfiantes no amor só em algumas situações? Por que isso acontece? Em quais momentos é mais fácil confiar no próprio taco e em quais é mais difícil?
Estela: Respondo à sua pergunta com uma simples indagação, pensando na expressão literária e mitológica do "Tendão de Aquiles": quem de nós não tem o seu? Bem-vindo ao mundo dos humanos... Todos nós temos nossas vulnerabilidades e pontos de fragilidade no amor.
Se o seu "Tendão de Aquiles" tem te machucado nos relacionamentos, você não precisa carregar essa insegurança sozinho. Estou aqui para caminhar junto com você na reconstrução da sua autoconfiança. Clique aqui e agende a sua consulta diretamente comigo.