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Entrevista para a Revista Cosmopolitan: Escolha do Parceiro e Casamento - Psicóloga Estela Noronha | Avenida Paulista - SP

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Entrevista para a Revista Cosmopolitan: Escolha do Parceiro e Casamento

Cosmopolitan: Como Escolher o Homem dos Seus Sonhos segundo a Psicologia

Entrevista concedida à Revista Cosmopolitan (edição de setembro de 2015) para a jornalista Marina, abordando o tema central: "Você vai escolher o homem dos seus sonhos"

  • É possível perceber desde o início do namoro as características reais do homem? Por exemplo, eu consigo perceber logo se ele é do tipo que acredita – de fato – em igualdade entre homem e mulher? Se é do tipo que divide as tarefas domésticas, em vez de esperar que a mulher lave, passe e cozinhe para ele? Ou que apoie a carreira da mulher? De que forma? Quais sinais são dados que mostram esses valores como essência mesmo, e não como atitudes para impressionar? Gostaria que me desse exemplos de atitudes.

Estela: vários machos do reino animal, quando querem atrair a sua fêmea, utilizam-se de inúmeros truques para chamar a sua atenção: emitem sons "atraentes", estufam o peito, abrem as penas volumosas e coloridas ou fazem a dança do acasalamento. Segundo a bióloga Karlla Patrícia, os pássaros do gênero Amblyornis, na época de reprodução, constroem e enfeitam o ninho com frutos silvestres, flores e sementes para chamar a atenção da fêmea. Mas a construção serve exclusivamente como um "motel", pois os descendentes são chocados em ninhos separados, construídos pelas fêmeas.

Olhando por este prisma, por que os homens não utilizariam recursos semelhantes para atrair as mulheres? É um comportamento da natureza dos instintos. Lançam mão da sedução das mais variadas formas e revestem-se de uma persona, ou seja, de um papel que pareça ser mais adequado para a ocasião, inclusive adotando, eventualmente, comportamentos que de fato não os representam. Afinal, impressionar faz-se necessário na fase da conquista! Mas nada dura por muito tempo se "a imagem vendida" não tiver um escopo real e genuíno de autenticidade.

Eu tive uma paciente que era apaixonada por vinho, tão entusiasta que fez várias viagens que incluíam a enogastronomia no seu roteiro. O recém-namorado, para agradá-la, sempre brindava os jantares com vinhos recomendados pelo sommelier do restaurante. Óbvio, não muito tempo depois, ela descobriu que ele não tinha prazer algum com vinho — aliás, com bebida nenhuma, a não ser uma cervejinha ocasional. Abraham Lincoln disse uma frase muito importante para a política, mas que ilustra bem o que estamos falando: “Você pode enganar uma pessoa por muito tempo; algumas por algum tempo; mas não consegue enganar a todos por todo o tempo”. No caso do início do namoro, se a mulher estiver atenta, mais rápido poderá perceber as contradições e distinguir o que é real e o que é fictício no comportamento do seu par.
Dicas fáceis podem ser colocadas em prática: pergunte ao seu namorado ou pretendente como é o seu relacionamento com a mãe. Perceba se ele é o filho adulto que ainda recebe cuidados como se fosse uma criança ou se essa mãe exerce forte influência sobre suas decisões. Piadas “inocentes” sobre a mulher, que escapam depois do terceiro copo de bebida, são altamente reveladoras. A bebida costuma derrubar defesas egóicas ou máscaras facilmente. Observe como é o relacionamento dele com as colegas de trabalho. Ele as respeita? Ou julga que são sempre incompetentes ou que estão em permanente estado de TPM? Ele tem noção dos preços no supermercado? Sabe cozinhar pratos básicos, simples, como fazer um café? Aliás, sabe onde ficam os utensílios da casa?

  • E quanto a características paternas, saber se o homem será um pai participativo? Como você percebe isso, sem ter filhos?

Estela: da forma descrita na resposta anterior: perceba os valores para com o pai. Ele tem um olhar amoroso para com o pai dele? É respeitoso e participativo em relação aos interesses do pai? A relação com o pai é fraterna e de confiança mútua?
Os homens tendem a repetir os aspectos conceituais fundantes do modelo aprendido. Caso as respostas para esse questionamento sejam em sua maioria positivas, então será muito provável que o seu namorado venha a ser um pai presente, amoroso e participativo com os seus filhos. Veja como ele interage com as crianças da família, tanto na sua quanto na dele.

  • Esses sinais aparecem logo no início do relacionamento ou é preciso esperar a paixão diminuir para que as pessoas passem a se mostrar como realmente são? Existe um tempo para isso?

Estela: a paixão é altamente projetiva. Mas o amor também pode sê-lo. Enxergamo-nos no outro aquilo que queremos, necessitamos ou somos. A pessoa não passa a mostrar o que realmente é quando a paixão diminui. Mas é você que começa a “desbloquear” aquilo que a cegava. Comprou o pacote fechado porque não quis ou não pode ver o que havia dentro, certa de que o conteúdo era o que você esperava, dentro de suas expectativas. Porém, quando a paixão se arrefece, é possível vislumbrar o outro como ele realmente é, inclusive com seus defeitos, perfeitamente humanos. A questão do tempo, nesses casos, é muito relativa, difícil de mensurar.

  • Percebendo que o homem não tem algumas das características que ela busca, como saber se ele pode adquirir algumas delas? Por exemplo, ele pode ser um pai participativo, mesmo não pensando em filho agora? Ele pode dividir as tarefas domésticas, mesmo não tirando o prato da mesa na casa da mãe? Ele pode ser mais romântico, mesmo nunca tendo feito nenhuma declaração de amor até então? Quais características podem ser adquiridas e quais não podem? O que pode e não pode ser mudado em uma pessoa?

Estela: sua pergunta diz respeito não apenas a mudanças de comportamento. Sugere também mudança de valores pessoais. Sendo assim, a melhor dica que você poderá receber dele será a percepção do seu namorado sobre as possibilidades de atualizações de valores sociais por parte dele. Pois os exemplos que você cita na sua pergunta encaixam-se perfeitamente em uma possível mudança de paradigma. Em curtas palavras, o que você deve perceber sobre as características sociopsíquicas do seu namorado é o quanto ele está atento às mudanças de valores, consequentemente de comportamento, e a capacidade da adoção prática desse novo status quo.

  • E como a mulher pode estimular o homem a desenvolver essas características? De que forma ela pode fazer isso sem forçar a barra para transformá-lo em outra pessoa? Nesse processo, quais limites não podem ser ultrapassados? O que a mulher deve ter em mente?

Estela: antes de qualquer coisa, o mais importante de se entender é que NINGUÉM muda a essência do outro. Vi inúmeros casos em que pessoas se iludiram achando que, depois do casamento, o parceiro iria mudar. E por não aguentar a decepção de não conseguir a mudança, muito menos de rever suas próprias expectativas, se separaram.
Num bom relacionamento, aquele que vale a pena, as partes envolvidas procuram empaticamente entender o outro e se ajustar ou moldar-se às necessidades do relacionamento, sem perder suas características individuais. É como uma dança em dupla: para ser harmoniosa, precisa que cada um cumpra o seu papel, confie no outro e dancem para o mesmo lado.

  • Dando-se conta de que o homem não tem as características que ela deseja (e nem as desenvolverá), como a mulher pode tomar forças para terminar aquele relacionamento (mesmo gostando dele)? Terminar é mesmo a atitude mais recomendada ou é radical demais? É preciso esperar o sentimento diminuir para fazer isso e sofrer menos?

Estela: se essas características são fundantes para a pessoa, ou seja, importantes e estruturantes para a sua vida, ou os valores lhe são caros e o outro não os atende minimamente, é preciso pensar e pensar muito bem se vale a pena continuar essa relação. Ao contrário do que acontece com as pessoas com características de personalidade diferentes, quando há maturidade no casal, essas diferenças são contornáveis. Podemos aprender a conviver e a entender o outro, mesmo que isso, num primeiro momento, pareça difícil. Porém, quando há razões culturais como religião ou valores éticos e morais muito discrepantes e opostos, ou até mesmo radicais, aqui pode ocorrer um grande problema. Cortar o mal pela raiz o quanto antes é o mais indicado. O problema não está apenas na diminuição do sentimento, mas no risco de aumentar a mágoa, o ressentimento, as memórias perturbadoras e os vínculos afetivos distorcidos.

  • Caso ela não termine e decida levar adiante a relação, ela corre o risco de se frustrar adiante, mesmo gostando do homem? Por quê?

Estela: claro, e muito provavelmente viverá uma vida resignada ao lado dessa pessoa. Seus valores individuais serão reprimidos em favor do outro. Passará a viver “para alguém” e não mais “com alguém”. Há quem diga que o amor supera todas as barreiras. Eu, particularmente, não acredito. Reiterando o que foi dito acima, ninguém possui a capacidade de mudar o outro em sua integralidade. Mas uma personalidade mais forte e dominante, diante de alguém mais frágil, pode se sobrepor ao outro e dominá-lo. Nesses casos, definitivamente não há receita de felicidade. Lembrando que relacionamentos duradouros não são sinônimos de casamentos felizes. Muitos vivem mal, porém juntos, a vida toda, e os motivos são vários: culturais, econômicos, sociais, entre outros.

  • Bons relacionamentos são vistos como golpe de sorte do destino, mas na verdade são escolhas, né? E quais dicas podemos dar a essa mulher que entrará em uma nova relação? Como escolher um homem que tem as características que ela procura? É possível fazer um “processo seletivo” antes de se envolver? De que forma? A quais sinais ela deve se atentar? Qual peso tem a paixão e o pensamento racional nesse momento?

Estela: definitivamente não há receita pronta no que diz respeito a relacionamento e amor. Afinal, “o coração tem razões que a própria razão desconhece”. Não cabe aqui tanta racionalidade. Mas podemos pensar, sem generalizar, que relacionamentos bem estruturados são aqueles em que o casal possui valores e objetivos semelhantes, não iguais. Isso não existe. Em outras palavras, vislumbrem o mesmo horizonte, mas talvez usem de ferramentas diferentes para chegarem ao mesmo lugar. Porque as características de personalidade influenciam substancialmente na forma de ver e atuar no cotidiano. Casais que se amam, se respeitam e desenvolvem uma relação empática para com seu parceiro podem superar quaisquer obstáculos e seguir em frente, dentro de uma relação saudável, feliz e amorosa.

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