Casamento e Felicidade: Entrevista com Dra. Estela Noronha
Casamento e Felicidade: É possível ser feliz na vida a dois?
"O amor não é viver felizes para sempre, isso é conto de fadas. O amor é saber como enfrentar a vida juntos."
_S. Strenis.
Uma pergunta e uma reclamação são muito frequentes na psicoterapia quando o assunto abordado é o casamento ou o relacionamento conjugal.
A pergunta: em várias ocasiões nos meus atendimentos, fui questionada se eu conhecia algum casamento realmente feliz. Essa questão é quase sempre respondida com outra indagação: o que é um casamento feliz para você?
Em boa parte dos casos, "ser feliz" é sinônimo de um casamento cheio de paixão, muito sexo e com pouquíssimas brigas. Mas, principalmente, a busca é por um casamento cujo companheiro ou companheira corresponda à idealização de suas projeções e anseios.
Em outras palavras: espera-se que o outro saiba — ou precise saber — tudo sobre o que eu necessito, espero ou desejo.
A Armadilha das Projeções no Casamento
Porém, o seu parceiro não sabe. E não sabe por quê? Simplesmente porque ele não é você.
As pessoas frequentemente esquecem que estão se relacionando com um outro ser, alguém que possui sua própria individualidade e que não é a sua imagem e nem a sua semelhança. Essa busca pela perfeição é uma projeção muito comum no início da paixão, mas que deve ser recolhida e ressignificada quando há o amadurecimento da relação.
Em tempo: a felicidade não é um estado de espírito específico e contínuo, mas sim a soma dos momentos vivenciados. Ela não é um estado ininterrupto, mas sim uma ocorrência eventual e sempre episódica.
A reclamação: a queixa, quase unânime na primeira sessão de terapia de casal, sempre vem precedida por frases como: "Ah, mas ele (ou ela) não é mais a mesma pessoa com quem me casei" ou "Ele mudou muito". Ao que eu respondo, para a surpresa de muitos: "Ainda bem, não é mesmo? Tudo evolui. Por que justamente o seu casamento deveria permanecer na estagnação?"
Eu sempre digo que os relacionamentos — sejam eles de casamento, amizade ou familiares — consistem em "colar pedaços que se quebram o tempo todo". Quem mais nos magoa ou decepciona são justamente as pessoas que nos são caras e afetivamente importantes.
Manter uma relação longa e estável é um exercício constante e trabalhoso, mas vale a pena. Por isso mesmo, o vínculo não deve ser descartado, mas sim compreendido e incentivado com estímulos positivos que reforcem os laços afetivos.
O ditado popular que diz que "o amor é uma plantinha que precisa ser regada com regularidade, senão ela morre", traz um significado clínico muito importante. Afinal, sem cuidado contínuo, não há relacionamento saudável.
Dicas Práticas para Manter um Relacionamento Saudável
Então, o que podemos fazer para que uma relação permaneça saudável? Vou passar algumas orientações simples e fundamentais para aplicar no seu dia a dia:
- As DRs (discussão da relação) são necessárias: atenção, pois todo "contrato caduca". Com o tempo, combinados antigos tornam-se desatualizados e insuficientes para suprir as demandas futuras. Um relacionamento precisa ser renovado com base nas necessidades vigentes de cada fase do casal.
- O casamento como um contrato dinâmico: a relação é um acordo — formal ou não — entre duas pessoas que resolveram compartilhar suas vidas. As famosas "DRs" funcionam como os ajustes necessários desse contrato ao longo do tempo, fundamentais para referendar a união.
- A importância da comunicação assertiva: aquilo que não é dito ou comunicado de forma clara acumula-se e ganha contornos desproporcionais. Conversar é essencial, inclusive para dar o devido tamanho às situações presentes.
- Aprenda a relativizar: saiba ponderar o que realmente exige atenção. Caso contrário, absolutamente tudo se tornará motivo para uma "nova" discussão desgastante.
- Estabeleça acordos e minimize possíveis problemas: eu brinco, dizendo que há "problemas" que ficam flutuando na cabeça, alimentando o "mundo do achômetro". Traga-os para a realidade e lide com dados reais. Por exemplo: existem rotinas domésticas que são motivos frequentes de briga entre um casal, principalmente quando uma das partes está sobrecarregada. Solução simples: faça uma planilha com as atribuições do que cada um pode fazer, quando e a que horas. Talvez nas primeiras semanas esse acordo precise ser refeito, readequado e redistribuído. Refaça os ajustes necessários. Recorde-se: acordos devem ser atualizados sempre que necessário. Coloque-o num lugar visível — na geladeira ou dentro da porta do armário, por exemplo. Caso ambos levem a sério o combinado, frases como: "Mas, eu achei que você faria", "eu esperava que", "ah, nem lembrei" ou "não, isso não ficou claro", diminuem substancialmente e atritos desnecessários são evitados. Mas você pode me perguntar: e se alguém não cumprir o acordo? E se houver sabotagem? Bem, aí é hora de sentar e conversar.
- Conversar é essencial: mas dê o devido "tamanho" a situações diferentes. É absolutamente normal, na rotina do relacionamento, o surgimento de problemas e chateações no dia a dia. Transformar isso num probleminha ou num problemão dependerá da atitude tomada e da importância dada. Por exemplo: sobrecarregar uma das partes em atribuições de tarefas ou financeiramente pode ser um problemão. Assim como brigar por causa de uma toalha no chão, a luz acesa ou o lixo não retirado. Mas será que o peso e a importância são os mesmos? É preciso ter cuidado e saber distinguir entre situações que possam realmente ser problemáticas daquelas que são de fácil resolução. Conversar é essencial, inclusive para dar o devido tamanho às situações presentes que, muitas vezes, tornaram-se desproporcionais.
- Não é necessário ter razão em tudo: para a convivência ser boa, agradável e querida, é necessário ter um mínimo de tolerância com o seu parceiro. Também é importante não querer ter a "razão" em toda e qualquer questão ou circunstância e, principalmente, entender que ser empático com o companheiro é essencial para a vida saudável a dois. Em outras palavras, exercitar a empatia é ter a capacidade de se colocar no lugar do outro em situações com as quais talvez você não concorde. É, com genuína boa vontade, procurar compreender o ponto de vista daquele com quem se relaciona. Lembre-se: você também não é um ser perfeito, faz coisas no dia a dia que incomodam o outro. Ter alguém que lhe aponte os defeitos nas minúcias o tempo todo é muito desagradável e cansativo. Não exija a perfeição do outro porque você também não a tem. Há questões que devem ser resolvidas com maior praticidade e não com a exacerbação de egos.
- Faça elogios sinceros e valorize aspectos positivos: socialmente, somos preparados e cobrados para julgar e apontar os erros. Muitas vezes, as atitudes corretas são vistas apenas como obrigação, não necessitando de reforços. Isto é um grande engano! E um engano maior ainda quando se trata de um relacionamento amoroso. Veja esta pequena história:
Uma História sobre Expectativas e Frustração
Um dos cônjuges resolve fazer uma surpresa ao outro: um jantar especial. Foi ao supermercado, comprou flores, vinho, preparou a sobremesa preferida e light da pessoa amada, arrumou a mesa lindamente e passou perfume. Mas, na hora do cafezinho, esqueceu-se de comprar o adoçante. Foi o suficiente para o "mundo vir abaixo".
Por que as 10 atitudes absolutamente corretas tomadas antes do cafezinho perderam a importância diante do desabafo: "E o meu adoçante? Esqueceu? Você sabe que eu só tomo café com adoçante!"?
Ao apontar justamente aquilo que não foi perfeito, você invalida todo o esforço do parceiro e dá um estímulo negativo para que uma segunda oportunidade não aconteça.
Críticas constantes, com o tempo, acabam por desestimular não apenas as boas ações, mas, pior ainda, invalidam a pessoa que convive com você. Devemos ser capazes de elogiar e celebrar quando quem amamos faz algo de bom.
Por isso, lembre-se: reforce o que foi feito de positivo — a linda mesa, a surpresa, a iniciativa — e deixe o deslize do cafezinho para outro dia. Aliás, que tal transformar isso em um excelente pretexto para irem tomar um delicioso café na rua e se divertirem a dois.
- Dê atenção aos aspectos do cotidiano: quer coisa pior do que dormir ou acordar mal-humorado? Isto praticamente definirá como será o resto do seu dia. Pequenas gentilezas — como um beijo de boa noite, um "bom dia" com sorriso ou ir adiantando o café da manhã — fazem toda a diferença. Não cobre do outro, faça você primeiro. Tenha a iniciativa de ser gentil. Ah, o parceiro já se adiantou e fez o café? Não se esqueça de agradecer. Não brigue logo de manhã porque uma toalha ficou no chão. Pegue-a e a pendure, isso não irá quebrar a sua mão. São atitudes simples que podem alegrar a vida de um casal no início ou ao final de um dia de trabalho. Traga praticidade à sua vida.
- Há gestos e palavras "mágicas" que são verdadeiros fertilizantes para a plantinha do amor: "obrigado, querido(a), você é especial porque...", "fico feliz quando você...", "você é capaz", "você consegue", "pode contar comigo". Dê um afago, um sorriso, um simples abraço, deem-se as mãos ao caminhar ou deem um "cheirinho". Cuidado com o uso da linguagem. As palavras ferem e marcam profundamente. Seja educado com quem você ama. São pequenos gestos que aproximam o casal. Olhe e ouça. Nada é mais irritante do que conversar com o outro enquanto ele está teclando no celular ou no computador. Nem que seja por dois minutos, pare e dê atenção. Mostre que você está conectado com ele ou, pelo menos, envie uma mensagem de carinho. Temos a escolha, em qualquer interação, de nos conectarmos com o nosso parceiro ou não. A constância da falta de conexão pode, ao longo do tempo, corroer lentamente o relacionamento, mesmo sem haver um conflito claro. E diga: EU TE AMO! Não suponha que o outro esteja cansado de saber que você o ama. E, mesmo que saiba, diga assim mesmo. Todos gostam de ouvir que são amados e queridos.
- Lide com os conflitos de interesse com bom humor: às vezes — para não dizer muitas vezes —, não chegamos a um acordo imediato durante uma discussão. O excesso de brigas desgasta o relacionamento, e as pequenas "picuinhas" diárias acabam por pulverizar a relação. É plenamente possível lidar com os conflitos do dia a dia sem precisar sentar e conversar minuciosamente a cada evento "fora da curva" que ocorra na rotina. Uma excelente ferramenta para desarmar esses momentos é o bom humor. Aceite que seu companheiro ou companheira tem opiniões diferentes das suas. Afinal, a outra parte é realmente outra pessoa, com sua própria individualidade, e você não deve se esquecer disso.
Aceite que, às vezes, ele ou ela vai esquecer de uma data importante ou deixar um prato na pia. Isso acontece com todo mundo, acredite. Não apenas dentro do seu relacionamento. A vida anda muito agitada e cheia de compromissos, não é mesmo?
E por fim, pare e pense: afinal de contas, você quer ter razão em tudo ou deseja ser feliz no relacionamento?
Talvez seja preciso ceder e cooperar para encontrar soluções parcialmente vantajosas para ambos, e não apenas para uma das partes. É quando os interesses do casal se sobrepõem aos anseios individuais.
Por outro lado, nem tudo deve ser levado a ferro e fogo. Tenha bom humor, relativize as situações e não leve tão a sério as coisas pequenas. Quando o casal é capaz de rir ao se lembrar de momentos difíceis do passado que já foram superados, ou simplesmente partilhar de algo engraçado que viram durante o dia, a relação se fortalece.
Como vimos ao longo deste texto, o segredo para a felicidade conjugal não existe. O que existe é empenho e atitude. Comportamentos novos podem ser modelados, enquanto projeções e expectativas irrealistas precisam ser retiradas. Desenvolver uma relação empática com seu parceiro ou parceira também é fundamental. Empatia, lembrando, não é concordar em tudo com o outro, mas sim entendê-lo enquanto indivíduo, colocando-se genuinamente no lugar dele.
O Vínculo Conjugal e a Arte de Dialogar
Como afirma o psiquiatra Nairo Vargas: "O vínculo conjugal é o que potencialmente mais propicia conflitos". Daí não ser impossível afirmar que, sem bom humor, é muito difícil construir um bom casamento. Ter bom humor é preciso — talvez mais do que navegar —, como ouvimos na música de Chico Buarque e através da sensível poesia de Fernando Pessoa.
No entanto, e se a relação já está desgastada e hoje só sobram farpas e irritabilidade? Você se sente uma pessoa invisível, injustiçada e incompreendida? Vocês dois já não conseguem conversar sem brigar?
Se este for o cenário atual, procurem ajuda profissional. O psicólogo, com formação especializada em terapia de casal, auxiliará na condução da reabertura do diálogo, atuando como um intermediário fiel à causa de vocês.
A diferença entre uma briga que desgasta e uma conversa que fortalece o relacionamento está unicamente na forma como vocês se comunicam. Muitas vezes, sozinhos, caímos nos mesmos ciclos repetitivos de acusação e defesa.
O casamento de vocês está preso nesse ciclo?
Construa um casamento mais leve e real.
O casamento feliz não é um conto de fadas sem defeitos, mas sim uma parceria disposta a renovar seus combinados a cada nova fase. Se você sente que a comunicação travou ou que as brigas estão desgastando a relação, a terapia de casal oferece o espaço seguro e neutro que vocês precisam.
Permitam-se redescobrir a conexão e o carinho no dia a dia. Com atendimentos presenciais na Consolação / Avenida Paulista e também de forma online, ofereço um suporte terapêutico focado no acolhimento e no amadurecimento da vida a dois.
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Veja também a minha entrevista para a revista Cosmopolitan "Discutir a Relação sem Desgaste: Como Resolver Conflitos de Forma Prática".
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