Casal que Nunca Briga Tem Problemas? | Dra. Estela Noronha
Insegurança, Autoconfiança e Comportamento: no amor, você confia no "seu taco"?
Entrevista com a psicóloga Estela Noronha ao portal UOL
Entrevista sobre o tema "Casal que não briga nunca pode ter mais problemas do que parece", concedida à jornalista Marina Oliveira. O conteúdo foi produzido pela Agência Cucas Conteúdo Inteligente e publicado originalmente na seção Comportamento do portal UOL.
Brigas no Casamento: Por que a Ausência de Conflitos Pode Ser um Sinal de Alerta
Quando o Não Brigar Significa Anulação Pessoal ou Falta de Comunicação
Casais que Nunca Brigam: Mito ou Realidade?
1) Casais que brigam — pouco, muito ou o tempo todo — não é difícil de encontrar. Mas existem casais que não brigam nunca? Eu conheci uma pessoa que já namorava há anos e dizia ter brigado uma vez só com o parceiro. É possível?
Estela Noronha: Eu diria que é quase impossível. Teoricamente, relacionar-se bem, sem brigas e desentendimentos, significa aceitar o outro em sua totalidade, sem reticências. E francamente, isso é possível? Não. Em qualquer relação, por mais evoluída que seja, é natural que ocorram projeções, anseios e perspectivas individuais que habitam nossas mentes e corações. Um relacionamento saudável não é aquele que é perfeito, mas sim aquele capaz de "colar os caquinhos" sempre que necessário.
O Silêncio no Relacionamento é Saudável ou Prejudicial?
2) Não brigar nunca é ruim ou é saudável? Por quê? Isso pode indicar superficialidade, por exemplo, ou até um descaso com a relação? Ou indica harmonia?
Estela Noronha: A palavra "nunca" é perigosa e definitiva; temos que ter cuidado ao usá-la. Não brigar pode significar muitas coisas: harmonia ou descaso, superficialidade ou uma personalidade "alfa" — aquela que é dominante e submete o outro à sua vontade. Pode ser um fator cultural, como em sociedades nas quais o patriarcalismo e o fundamentalismo religioso são preponderantes, o homem tem a última palavra, o papel da mulher é secundário e sua voz é muda. Ou pode ser, simplesmente, falta de comunicação: "Tenho que conversar sobre aquele assunto, mas por onde começar? Acho melhor deixar para outro dia..."
A Anulação Pessoal e a Diferença entre Ouvir e Escutar
3) Quando não há nenhuma discussão, é possível que uma das partes esteja se anulando? E isso é prejudicial? De que maneira?
Estela Noronha: Sim, pode ser uma possibilidade, não uma certeza. Nesse caso, a parte "anulada" é aquela que não é escutada. Sua demanda não reverbera e não chega ao outro. Lembrando que escutar é muito diferente de ouvir. Escutar está mais próximo do significado de prestar atenção ao outro, sentir, perceber e tornar-se atento. Já o ouvir está relacionado apenas ao sentido da audição. Quando você escuta a expressão "entrou por um ouvido e saiu pelo outro", quer dizer: eu ouvi, mas não escutei. Portanto, neste contexto, não escutar não é apenas não discutir, é também uma forma de ignorar o parceiro.
4) O casal não brigar significa que eles nunca discordam? Ou apenas que as discordâncias não levam a brigas de fato?
Estela Noronha: Não, significa que eles, muito provavelmente, não dialogam. Ou ainda, que possuem personalidades tão diferentes que veem o mundo e as situações de forma oposta. No entanto, se o casal for capaz de aceitar minimamente o outro, as discordâncias naturais não se transformam em brigas destrutivas.
Diferença entre Discordar e Brigar no Casamento
5) O que significa brigar? Uma discordância pode ser considerada uma briga? Qual a diferença dessas duas situações? O nome "briga" automaticamente remete à ideia de desgaste na relação, mas essa ideia é correta? Ou existem brigas saudáveis? Como elas se caracterizam?
Dra. Estela Noronha: Apesar de serem terminologias semelhantes, elas não formam o mesmo conceito. Discordar significa contenda, controvérsia e debate de ideias. Brigar está mais próximo de lutar, provocar confusão e disputar. Mesmo nos diálogos mais construtivos, onde os problemas são tratados de forma cooperativa e não destrutiva, as divergências podem se transformar em brigas. Isso acontece quando o lado emocional sai do controle ou quando aquele que tem a personalidade mais forte se exalta.
Quando o Conflito se Torna Destrutivo
6) O que é uma briga ruim? Qual tipo de discurso é usado nessas brigas?
Dra. Estela Noronha: A briga ruim é aquela em que você perde o foco do problema e parte para o ataque pessoal, agredindo o seu interlocutor moral, emocional e até fisicamente. Dizem-se coisas das quais se arrepende quando se "esfria a cabeça", mas que não se consegue segurar na hora da briga, mesmo sabendo que isso irá ofender e magoar profundamente a outra parte.
Como Aprender a Discutir de Forma Construtiva
7) É possível um casal aprender a brigar? Como fazer isso?
Dra. Estela Noronha: É possível o casal aprender a discutir e a dialogar de forma construtiva. Uma dica importante: coloque-se no lugar do outro. Não precisa concordar, nem ter os mesmos valores. Mas exercite sua vontade de entender a forma como a outra pessoa pensa, sente, vê, julga e compreende o mundo à sua volta. E, talvez, você perceba que não há uma única forma de ver e atuar no mundo, mas apenas uma maneira diferente de interpretar os fatos à sua volta.
Tipos Psicológicos e a Tolerância aos Conflitos
8) A tolerância a brigas vai depender do casal? Eu conheço pessoas que discutem o tempo todo, mas estão juntas há anos. Mas também conheço pessoas que odeiam brigar e, quando precisam lidar com um enfrentamento, se desestabilizam muito.
Dra. Estela Noronha: Vamos dar o exemplo de personalidades introvertidas e extrovertidas. Isso, por si só, muda radicalmente a forma do relacionamento e de como as pessoas se relacionam. O indivíduo introvertido sempre elabora sua opinião subjetiva a partir da percepção do objeto; portanto, de caráter subjetivo. O indivíduo extrovertido se prende àquilo que recebe do mundo através dos órgãos dos sentidos.
Quando duas pessoas se deparam com o mesmo objeto, evento ou situação, elas o percebem de maneira distinta. Sempre existirão muitas e profundas diferenças no significado e na representação psíquica daquilo que é percebido. Portanto, começar uma discussão depreende muita energia, e a desestabilização é frequente porque estamos lidando com tipos psicológicos diferentes, que têm dificuldade de compreender o outro.
Perfis Comportamentais: Quem Busca e Quem Evita o Conflito
9) Tem pessoas que gostam de brigar? Como podemos reconhecer essa pessoa? Quais características ela tem?
Dra. Estela Noronha: Os "donos da verdade" e os que se dizem "cheios de razão e lógica" adoram uma boa briga. Aqueles que não aceitam uma opinião divergente da sua e têm na teimosia seu maior argumento, pois acreditam que não ganhar uma discussão é sinal de fraqueza. A arrogância é um traço de personalidade dos brigões de carteirinha.
10) E aqueles que não brigam nunca? Quais características eles têm?
Dra. Estela Noronha: Podem ser vários os motivos, que vão desde insegurança e timidez até pouca fluência verbal. A pessoa pode ser detentora de uma personalidade menos passional, o que de forma alguma é um defeito. Aqueles que não gostam de brigar, na verdade, "escolhem as suas batalhas": elegem aquelas que realmente valem a pena e deixam para os brigões o ônus desagradável e o desconforto que a briga inútil traz.
O Caminho para a Comunicação Assertiva no Amor
11) Por fim, é possível recomendar um ponto de equilíbrio nessas situações — ou seja, brigar nada, brigar pouco ou brigar muito?
Dra. Estela Noronha: O ponto de equilíbrio é: conversar, escutar e aprender a se colocar no lugar do outro. Não precisa concordar, mas exercite profundamente sua vontade de compreender o parceiro. Esse é o único caminho.
Encontre o equilíbrio que o seu relacionamento precisa
Se essa leitura trouxe reflexões sobre a forma como você ou seu parceiro lidam com os conflitos, saiba que o silêncio que machuca ou as brigas que desgastam podem ser transformados em diálogo saudável. Você não precisa enfrentar essa jornada sozinho.
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